São lesões da medula espinhal em nível da região do pescoço que causam paralisia nos membros superiores e inferiores. Entretanto, dependendo do local da lesão na medula espinhal, alguma função dos membros superiores é preservada. Frequentemente, a lesão medular ocorre no nível C6. Isto acarreta perda dos movimentos dos dedos e da extensão do cotovelo. Os movimentos do ombro, da flexão do cotovelo e extensão do punho tendem a estar preservados. Contudo, em alguns pacientes, a extensão do punho também pode estar afetada.
Em geral, se um músculo ainda estiver totalmente paralisado aos 2 meses após o acidente, ele não recuperará uma função normal. De outro lado, se aos 2 meses, ele estiver contraindo - mesmo que fracamente - ao final do primeiro ano, este músculo estará muito mais forte. Se passados 6 meses do acidente, os músculos permanecerem paralisados, eles não voltarão a funcionar. Este é um ponto importante, no sentido de não se perder tempo e desperdiçar oportunidades de melhorar o funcionamento das mãos. Desta forma, na nossa opinião, aos 5 meses após o acidente, o paciente não deve submeter-se unicamente à fisioterapia. Ele deverá procurar um tratamento cirúrgico que consiste na realização de uma transferência nervosa.
Objetivos do Tratamento Cirúrgico
Embora quando se depara com um paciente com tetraplegia a primeira ideia seja fazê-lo andar novamente, isso não é a maior prioridade para os pacientes com tetraplegia. Segundo estudos realizados, a maior prioridade é a melhora da função do membro superior.
O que se faz para melhorar a função dos membros superiores?
Alguns tendões e músculos podem ser deslocados de um lugar para outro, o que chamamos transferências tendinosas ou musculares, para recriar uma função ausente. Por exemplo, a parte posterior do músculo deltóide pode ser transferida para o tendão do tríceps para se conseguir a extensão do cotovelo. Este tipo de cirurgia melhora a função do membro, entretanto os resultados não são excepcionais. Transferências tendinosas podem ser realizadas também na mão, para que o paciente possa fechar os dedos. Em geral, a regra é que uma transferência tendinosa seja realizada por volta de 1 ano após o acidente. Todavia, existe cirurgiões que propõem a cirurgia mais precocemente.
O que se propõe de mais moderno?
Recentemente, iniciamos um tratamento baseado na transferência de nervos. Ligamos um nervo ao outro como se estivéssemos fazendo um "gato na instalação elétrica". Tomamos emprestado do nervo vizinho e colocamos a ligação para uma função ausente. Por exemplo, ligamos o nervo que abre os dedos ao que gira a palma da mão para cima (Fig 1). Os resultados com estas novas técnicas têm sido impressionantes. Ao ponto que o centro de recuperação de tetraplégicos na Suécia reconheceu esta técnica como
"breakthrough" (importante descoberta). Nosso trabalho original foi publicado em uma revista americana.
Veja a reportagem aqui (
http://www.tetrahand.com/2010/10/dr-bertelli-reports-break-through-in.html).
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Fig. 01 A - Foto da face dorsal do cotovelo direito. Os nervos do músculo supinador foram conectados com o nervo que extende os dedos. O músculo supinador gira a palma da mão para cima. Após a cirurgia, não existe perda de movimentos porque a ação de girar a palma da mão para cima é principalmente executada pelo biceps.
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Fig. 01 B - Foto da mão do paciente antes e depois da cirurgia.
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Da mesma forma que reconstruímos a extensão de dedos, podemos, através de uma transferência de nervo, reconstruir também a função do tríceps.
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Fig 02 - Neste paciente reconstruímos a extensão do cotovelo conectando o nervo do redondo menor com os ramos nervosos do tríceps. O nervo do redondo menor, gira o braço para fora. Após a cirurgia não existe perda deste movimento porque o principal responsável de girar o braço para fora é o músculo infraespinhoso que é inervado pelo nervo supraescapular.
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